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BECHOL LASHON Português A Torà é herança de todo o povo

DI MARTINOpor Eliezer Di Martino*

A Torà nos pede de pensar, avaliar e agir justamente; nos desafia a servir Deus com a nossa própria responsabilidade e inteligência, e não por obediência cega.
Na perashà de Nissabim : “Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco esta longe de ti. Não esta nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo fará ouvir, para que o cumpramos? Nem tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, para que no-lo traga, e no-lo fará ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires”. Deuteronomio 30:11-14
A Torà não é um documento esotérico que pode ser decifrado apenas por um grupo de elite de profetas ou sábios; pelo contrario, a Torà é herança de todo o povo. Cada um de nós tem acesso às verdades da Torà através dos nossos próprios esforços intelectuais e emocionais.
Vamos a analisar as palavras de um filósofo israelita, fundador do centro Shalem, o Dr. Yoram Hazoni. Num dos seus livros (The philosophy of hebrew scripture, 2012) , apresenta a tese de que a Torà é um corpo literário basicamente razoável e filosoficamente bem estruturado. Enquanto muitos caracterizaram erroneamente a Bíblia como uma obra simplista que não pede nada mais do que cega obediência à Palavra Divina, o Dr. Hazony demonstra que a Bíblia é de facto uma obra intelectualmente muito sofisticada. Se pudéssemos estudar a Bíblia nos seus próprios termos, entender os seus próprio métodos literais e filosóficos, então repararíamos que a Torà não é apenas uma colecção magnifica de literatura e leis, mas também uma profunda exploração de ideias e ética.
A Bíblia Hebraica inclui um amplio leque de textos, com pontos de vistas variantes. Invés de dar-nos verdades dogmáticas em forma de catequese, a Torà nos oferece narrativas históricas, leis, orações proféticas, literatura de sabedoria. O Dr. Hazony nota que o alvo do Editor bíblico, ao juntar textos tão diversos e as vezes em conflito entre eles, no foi construir uma obra unitária com uma mensagem inequívoca. Foi mais, montar uma obra capaz de capturar e reflectir uma determinada tradição de investigação assim que os leitores pudessem esforçarem-se a entender as varias perspectivas abrangidas por tal tradição, e assim fazendo, construir um entendimento próprio deles (dos leitores). O leitor que aborda a Bíblia Hebraica então é convidado e desafiado a tomar lugar dentro desta tradição de investigação, e a continuar a sua elaboração através das suas próprias capacidades.
O Judaísmo nos chama a participar nesta “tradição de inquérito,” para ser buscadores da verdade. Certamente, a Torà oferece leis que somos ordenados a obedecer. Mas oferece muito mais do que isso: oferece um contexto espiritual para a vida, um respeito pelos nossos esforços pessoais, religiosos e filosóficos, uma consciência realista e humilde dos nossos pontos fortes e limitações como seres humanos.
O Judaísmo está no seu melhor quando os seus adeptos são intelectualmente e emocionalmente activos em entender os seus ensinamentos; e muito abaixo do seu melhor quando os seus adeptos afundam no abismo da obediência cega.
Numa das tantas discussões entre judeus nos vários forums de Facebook, debateu-se sobre o conceito de Daat Torà, ou como o chamam os seus adeptos Daas Toire, e lembrei-me de que alguns anos atrás, uma revista qualquer publicou uma lista dos 10 mais ricos rabinos em Israel. Os valores líquidos variavam entre os 9 milhões de dólares até os 335 milhões de dólares! Parece quase todos estes rabinos têm reputações como milagreiros, cabalistas e rebes Hassidicos de grandes dinastias. Esses rabinos acumularam grandes fortunas, porque o público está disposto a pagar-lhes por suas bênçãos, amuletos, água benta, etc. Parece que um segmento considerável da população não acredita na sua própria capacidade de relacionar-se com Deus, e quer a intercessão de homens que supostamente têm uma linha direita com Deus. Muitas pessoas não estão interessadas no “espírito de investigação” peculiar do Judaísmo, mas querem “verdades” como prometido a eles pelos tais rabinos milagreiros, como em outras religiões bem distintas da nossa.
Se esses rabinos milagreiros de facto têm tais poderes mágicos e podem controlar a vontade de Deus, então por que não usar esses poderes para desarmar os inimigos de Israel, para erradicar o antissemitismo, para punir os ímpios, para abastecer a todos os doentes, pobres e famintos do mundo?
Surgiu uma tendência em segmentos do mundo judaico que concede poderes mágicos, mesmo infalíveis, a certos “rabinos”. Essa tendência leva a uma grande perversão do judaísmo, e vira na direcção da superstição e do paganismo. Promove o autoritarismo, obscurantismo e dogmatismo. Isso prejudica a liberdade de pensamento, a investigação religiosa, a independência de espírito. O facto que figuras rabínicas de culto podem acumular tantos milhões de dólares é uma indicação de quão profundamente essa tendência negativa se enraizou.
E’ essencial recuperarmos o judaísmo como um estilo de vida religioso intelectualmente activo, criativo e dinâmico. Isto implica compromisso pessoal, sentido de responsabilidade e um compromisso com o “espírito de investigação” que caracteriza um judaísmo saudável. Precisamos ter o respeito de nós mesmos e a dignidade religiosa para pensar e para continuar a pensar.

*Eliezer Di Martino é o Rabino-Chefe de Trieste